terça-feira, 3 de novembro de 2009

TEMPORADA 3 - Exercício 1

Em não mais que uma semana, o comportamento de Marta mudou. Ela se tornou distante, desinteressada do mundo. Não que tivesse deixado de ser carinhosa. Ainda tinha a mesma doçura no olhar. Foi o entusiasmo que sumiu. Antes, quando Marina chegava em casa, ela fazia a maior festa, a recebia com uma alegria quase eufórica - parecia que fazia dias que não se viam. Bastava que ouvisse o barulho da chave na fechadura para sair em disparada para a porta. Agora, quando o trinco range, Marta limita-se a fixar o olhar no corredor de entrada, esperando que Marina venha lhe cumprimentar.

É bem verdade que está velha. E, talvez por isso, preguiçosa demais. O corpo parece uma massa pesada e lenta. A respiração fica ofegante por qualquer dois minutos de caminhada. Marta dá sinais claros de senilidade. Está grisalha e gorda. As tetas estão moles e penduradas.

Marina quer ser compreensiva com a companheira, mas percebe que há algo errado. Na noite passada, pela primeira vez nos treze anos em que vivem juntas, Marta não quis dormir na cama com ela. A noite chegou e ela não se moveu do sofá da sala. Estava mais estranha do que nunca. Marina achou melhor não forçá-la. Deixou que ficasse sozinha.

Tentou pegar no sono.
Não conseguiu. Sentia-se preocupada.

Enrolou-se num cobertor e foi até Marta.
Ela dormia.
E não acordou.

Marina aproximou-se com leveza. Deitou-se ao lado dela, e passou quase uma hora admirando cada detalhe.

Ela a amava.

Profundamente.

E sentiu um aperto no coração de tanta ternura.



Adormeceu.



O telefone tocou bem cedo, às 7h30. As duas acordaram no susto. Marta pulou do sofá e Marina levantou para atender a chamada. Era do escritório em que Marina trabalha. Avisavam que o projeto que ela havia inscrito em uma feira foi aprovado. A notícia era fantástica. Com isso, além de prestígio, ela certamente receberia um aumento.

Mas antes mesmo que pudesse comemorar, um turbilhão invadiu sua mente. Marina precisava se organizar. Teria que passar quinze dias fora. Hoje era terça-feira e ela viajaria na quinta-feira da semana seguinte. Quem tomaria conta de Marta? Além de hotéis custarem uma fortuna, ela não gostava de deixar Marta com estranhos. Ainda mais agora.

Marta!
Marta!
Marta! Vem aqui, pequena!

E andou pelos cômodos procurando por ela.

Marta?
Vem aqui, meu amor...

Escutou uns latidinhos abafados e a encontrou deitada no chão da cozinha.
Vômito, ao lado.

Marina nem se preocupou em limpar, vestiu-se rápido, lavou o rosto, escovou os dentes e carregou-a no colo até o hospital veterinário - que, por sorte, ficava logo na quadra de cima.

Marta estava toda molenga. Não ficava nem em pé, as patinhas estavam fracas. Marina quis chorar, mas aguentou firme.

O veterinário explicou que a doença era grave, e sem cura. Que, por hora, Marta estava medicada, e se sentiria melhor pelos próximos dias. Disse que a piora do quadro iria progredir em dois meses, quem sabe até quatro, ou seis. Que não havia como dizer ao certo. Mas que chegaria um momento em que o mais indicado seria sacrificá-la.

Marina acariciou a cabecinha de Marta. Tomou-a nos braços, como se fosse um bebê. Encostou a ponta do nariz no focinho dela e apertou-a levemente contra o peito. "E, doutor, será que podemos colocá-la pra dormir na quarta-feira que vem?".

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

TEMPORADA 2 - EXERCÍCIO 1

Marina refogou as coxinhas de galinha na panela e temperou tudo com alecrim fresco. O arroz ficou soltinho, e os tomates da salada estavam bem maduros, quase adocicados. O cheirinho da comida era de abrir o apetite.

Na mesa, ela colocou os pratos, os copos e os talheres sobre uma toalha branca, com bordas de crochê. Uma brisa gostosa refrescava o calor do ambiente e fazia tocar o sino-dos-ventos na varanda.

Marcos entrou na cozinha carregando um punhado de limão galego, que colhera no quintal. Fez questão de preparar o suco. Bateu com gelo e colocou açúcar. Depois, serviu à esposa um tantinho para ver se estava bom. Está do seu gosto, amor? E lhe roubou uma bitoca.

Almoçaram enquanto tratavam de pequenos assuntos: a muda de gérbera que parecia não pegar, os planos para o parto da cadelinha prenha, o passeio que fariam com os netos no final de semana. E se divertiram ao lembrar das graças do mais novo, de três anos. Eram encantadoras as confusões que ele fazia com as palavras, trocando as sílabas e os significados.

Quando acabaram, Marcos fez questão de tirar a mesa e lavar a louça. E Marina agradeceu. Estava cansada e com dor nas pernas. Quis deitar e dormir um pouco. Antes que pegasse no sono, ele ainda descascou uma laranja e levou para ela na cama. Estava gelada e suculenta, Marina não dispensou a sobremesa.

Um pouquinho antes das 14 horas, ele se ajeitou para sair. Era terça-feira, dia em que ele gostava de ir ao cinema. Vestiu uma calça de linho marrom, de pregas bem marcadas. A camisa branca - de mangas curtas – estava impecável, cheirando a amaciante. Antes de sair, certificou-se que os sapatos estavam bem engraxados e os fios do bigode aparados. Despediu-se da esposa, fez-lhe um carinho nos cabelos, e foi para o passeio.

Como já era de seu costume, parou em uma banquinha de jornal. Comprou um punhado de balas de goma e folheou algumas revistas. Adorava balas de goma. Decidiu comprar mais um saquinho, para presentear Marina quando voltasse para casa.

Já que o filme demoraria ainda quarenta minutos para começar, Marcos aproveitou para sentar no banco da praça e apanhar sol. Aguentou quase dez minutos até que a careca começasse a arder. Se arrependeu por não ter trazido o chapéu.

Pensou em mudar para o outro banco, que estava sob a sombra de uma grande Figueira. Mas preferiu seguir a jornada. Caminhou lentamente pelas cinco quadras. Não tinha motivos para pressa, naquele horário o cinema estava sempre vazio.

Marcos era acostumado a ter sessão particular: dos seis meses em que frequentava o local, apenas duas vezes teve companhia. Em uma delas, a sala ficou lotada por uma excursão escolar, o que fez com que ele preferisse ir embora.

Hoje, ele chegou, pagou a entrada e passou pela catraca.
Foi até o banheiro.
Urinou.
E saiu sem lavar as mãos.

Assim que entrou na sala, deu de cara com um grupo de meninos, que não deviam ter mais que treze anos. Eram seis. E um deles usava boné. Marcos sentiu a garganta apertar de raiva. As bochechas esquentaram e o cenho franziu quase que imediatamente. As risadas esganiçadas e a tagarelice quase o fizeram voltar para casa. Mas ele suportou. Escolheu um lugar bem longe deles, no fundo. E sentiu o suor empapar a camisa.

O filme começou e os garotos silenciaram.

Marcos esperou a luz apagar, abriu o botão da calça e abaixou o zíper. Tentou fixar a atenção na tela. Mas os olhos teimavam em voltar para os garotos. Da posição em que estava, não podia ver mais do que o topo da cabeça deles.

Então, precisou imaginar o resto.

Nessa idade, já deviam ter pêlos pubiano. E certamente já tinham ereções. Será que algum deles já havia feito sexo na vida? Será que sequer já haviam beijado na boca? Na adolescência, tudo que mais se quer é transar. Um garoto nessa idade passa o dia inteiro pensando em foder uma bocetinha. E não importa qual. Qualquer uma, que seja feia ou bonita. Até meter num cu serviria pra aliviar o desespero.

Marcos se masturbou forte e devagar. Quando o gozo veio, precisou segurar a respiração para não ser denunciado. E cobriu a glande com um lenço para que o jato não espirrasse na poltrona. Assim que o corpo amoleceu, fechou a calça e se levantou. Precisou se agarrar ao corremão para não tropeçar nos degraus da escada. A escuridão atrapalhava os sentidos, mas Marcos agradeceu por não ser visto.

Quando chegou à rua, secou o rosto com o mesmo lenço. Dobrou-o quatro vezes e guardou no bolso. Uma leve taquicardia o acompanhou de volta ao banco da praça. Marcos se sentou. Voltou a sentir o sol na pele. Sorriu. E chupou os dois sacos de balas.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Exercício 10

Posicionou os pés bem rente à beira. Flexionou os joelhos. Respirou fundo. E pulou. Só sentiu o gelado da água quando já tinha nadado uns três metros. O choque térmico dificultou o fôlego, mas Marina não se impressionou – sabia que era uma questão de tempo até que entrasse num ritmo tão mecânico que o corpo se acostumaria com a redução de oxigênio.

Manteve as braçadas largas e alinhadas. Tinha o corpo longilíneo. Media 1 metro e 76 centímetros. As coxas eram grossas. E os braços exibiam músculos fortes. Era bonito ver como deslizava na água.

O instrutor pediu 16 piscinas de nado livre para o aquecimento. Ela fez quatro voltas a mais, perdida que estava nos pensamentos. Gostava de desafiar a si mesma propondo cada vez menos respiradas durante o trajeto. Começava com uma a cada 5 braçadas e ia aumentando. Às vezes, fazia os 25 metros num fôlego só. A ausência de som debaixo da água a agradava, e Marina se divertia testando limites.

A primeira hora de treino era sempre a mais difícil. Chegava a achar que afundaria na água e teriam que resgatá-la do fundo. Sentia isso todos os dias. E todos os dias superava. A vantagem era que, passado esse momento, parava de sentir. E, então, era como se pudesse nadar para sempre.

Terminado o treino, ela ainda demorou a sair da piscina. Ficou se alongando na água. Depois, colocou os chinelos e caminhou até o vestiário. As pernas ainda tremiam. Tirou os óculos e a touca apenas quando estava no chuveiro. Demorou lavando os cabelos, não gostava de ficar nua perto das amigas e esperou que saíssem para acabar o banho.

Naquele dia, quis se olhar no espelho. Achou os seios bonitos. Pequenos, mas cheios. Os mamilos eram rosados, e ela gostava que fossem assim. Perguntou-se se os ombros não eram um tanto largos demais. E, quando colocou o sutiã, constatou que eram. Notou também que tinha quase nada de cintura. Sentiu-se reta e pouco atraente.

Para o jantar, presenteou-se com um pote de creme de avelã e morangos. Pintou as unhas das mãos e dos pés de vermelho e assistiu ao noticiário enquanto secavam. Depois, perfumou o ambiente com essência de baunilha e trocou os lençóis da cama. Deitou-se com uma camisola nova, sem calcinha. E zapeou a televisão por mais de uma hora. Pegou no sono esperando que o telefone tocasse.

Marcos chegou em casa às duas da manhã. Tirou os sapatos na sala para não acordar a esposa e caminhou leve até o quarto. Trouxe uma rosa consigo.

Feliz aniversário, meu amor.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Exercício 9

Desceu as escadas correndo. Estava ansiosa para ver o que vinha. Abriu a porta, recebeu o pacote e assinou o papel. Era maior do que esperava, e era leve. Cortou a fita adesiva com a ponta da chave e desembalou. Não teve decepção: era exatamente como tinha visto no site.

Deitou-se na cama e namorou a capa, antes ainda de colocar pra escutar. Admirou as marcas do tempo. Tentou imaginar como era o antigo dono. Cuidadoso, com certeza. Estava quase imaculado. Podia até pensar que foi pouco tocado, mas duvidou. Música deste porte vira trilha sonora da vida.

Abriu a tampa de acrílico acinzentada, encaixou o disco e deitou a agulha. Adorava o chiado que fazia o espaço em branco. Estirou-se na cama, de barriga pra cima. Fixou o olhar no teto e escutou. Todas as faixas. Até que o chiado voltasse.

Achou que deveria trocar de roupa, vestir algo mais colorido. Escolheu uma peça laranja. Prendeu os cabelos em trança. Carregou na maquiagem. Achou que algumas velas iluminariam melhor que o abajur. Escolheu quatro pontos para colocá-las. Deixou uma sobre o criado mudo.

Às 8 horas a campainha tocou.

Marina estava linda. Vestido curtinho, as pontas dos cabelos ainda molhadas do banho. Ela tirou as sandálias e jogou-se no sofá. Não disse uma palavra. Só chorou. Os soluços comoveram a amiga. Ela se aproximou e lhe fez cafuné. Preferiu manter o silêncio. Notou que Marina sangrava nos joelhos e nas mãos. Tinha marcas de briga nos braços.

Foi até o banheiro e umedeceu uma toalha. Limpou-a com cuidado. E fez que tomasse um copo de água gelada. Quando Marina acalmou, convidou-a a subir para o quarto.

Escutaram o vinil enquanto tomavam vinho à francesa. A noite estava quente, então deixaram a janela aberta para refrescar, as velas ajudaram a espantar os mosquitos.

Marina leu poesias em voz alta. E contos eróticos. Elas falaram sobre os garotos da escola. Riram ao lembrar dos galanteios recebidos na última festa. Brincaram de escrever declarações de amor uma para a outra, e assinaram o nome dos meninos.
Caíram no chão sem fôlego pelas gargalhadas. Marina nem se importou com a calcinha à mostra.

Quando seus pais voltam?
Só amanhã à tarde.

Puseram-se na cama para assistir um filme de terror, mas nem estava na metade e pegaram no sono. Dormiram até perto do meio dia. Só saíram da cama porque o calor estava insuportável. Tomaram banho gelado, juntas. E fizeram almoço para o café da manhã. Antes de ir embora, Marina a abraçou e deu um selinho na boca: você é minha melhor amiga!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Exercício 8

Encontrou o presente perfeito e imaginou a felicidade que se estamparia no rosto dele quando recebesse a surpresa. O preço era alto, mas não se importava - pagaria no crédito, economizaria nos almoços, usaria menos o celular e andaria mais a pé. Um presente diz muito sobre você. Não podia errar, era preciso demonstrar sofisticação, elegância, erudição, charme e bom gosto.

Folheou com cuidado. Quis ter certeza que não tinha orelhas, que não estava sujo ou rasgado. Achou umas pequenas ranhuras na contracapa. E a lombada estava um tanto arranhada. Teria pedido um outro exemplar, mas desistiu da compra. Teve medo. Percebeu-se numa óbvia declaração de amor. As bochechas esquentaram e o coração disparou. Devolveu-o à prateleira e continuou andando pela loja. Passou os olhos por outros títulos. Separou vários. Considerou alguns. E abandonou todos.

A comemoração aconteceria num bar, com colegas do trabalho. Não era uma festa. E se ninguém mais levasse presente? Certamente levantaria suspeitas. Saiu da livraria com as mãos vazias. Foi até o supermercado e escolheu uma garrafa de uísque – 18 anos. Fez questão da marca. Saberia explicar as delicadezas da bebida, a região e o melhor modo de apreciá-la.

Precisou se apressar porque queria passar em casa e tomar um banho. Vestiria uma roupa nova, especialmente comprada para a ocasião. Ainda estava embaixo do chuveiro quando o celular tocou. Molhou todo o piso, mas algo lhe dizia para atender.

Era ele.

As pernas logo amoleceram. Falou em tom firme e simpático. Não conseguiu entender bem o que dizia, tinha um som alto de música, e também barulho de pessoas conversando.

Só para confirmar se você vem mesmo.

O resto do pessoal já estava lá e uma das meninas levou um bolo. Esperavam para o parabéns. Orgulhou-se da boa atuação, o atraso foi convincente. Teve certeza que não deu mostras de afeição exagerada.

Duas gotinhas de perfume, um tantinho de manteiga de cacau nos lábios, e pronto!

Carregou a garrafa de uísque despretensiosamente. Queria fingir que era algo protocolar, dessas coisas que a gente guarda em casa para dar quando for conveniente. Logo na entrada, encontrou com ele. Sempre muito gentil, agradeceu-lhe com um abraço leve e uns tapinhas nas costas. Avisou ao garçom que pagaria a rolha e pediu que trouxesse copos com gelo. Serviu a todos com o presente.

Brindaram.

A noite estava preenchida pelas gargalhadas. Alguns assuntos envolvendo as rotinas da empresa, piadas e desabafos. Conversaram com pessoas diferentes, em momentos diferentes. Os olhares quase não se cruzaram.

Num momento, reparou que já estava ficando bêbado. Falava alto. Gestos largos. Ainda assim, não perdia o charme. Os primeiro botões da camisa estavam abertos e as mangas arregaçadas. Tinha ombros largos e braços fortes. Decidiu tomar coragem e foi puxar conversa. Ele lhe recebeu com um sorriso.

A madrugada avançou e as pessoas foram embora. Sobraram os dois, rindo da vida. Quando Marcos disse que deviam ir, sentiu um abandono, uma vontade de ficar mais.

Claro. Já é tarde.

Caminharam juntos até o estacionamento. E quando se despediram, se abraçaram. E demoraram no abraço. E deixaram-se sentir um ao outro. A respiração mudou. Os músculos enrijeceram. Beijaram-se, com força. E Paulo sussurrou no ouvido: que bom que você veio.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Exercício 7

Há duas semanas estava com a mala arrumada e escondida no fundo do armário. Assim que tivesse chance, fugiria. E levaria o bebê consigo. Já tinha separado uma muda de roupas para ele, duas fraldas descartáveis, a mamadeira e uma lata de leite em pó. Também guardou uma boa quantia de dinheiro dentro do forro da bolsa e costurou bem para que ninguém desconfiasse. Julgava o plano perfeito: desmancharia três comprimidos de calmante – daqueles bem fortes – na comida do marido, e serviria o jantar só para ele, sob o pretexto de estar enjoada. Esperaria que adormecesse, pegaria suas coisas e sairia com o filho. A idéia era tomar um táxi até a rodoviária e partir para a capital. A viagem não demoraria mais de 5 horas, teria tempo suficiente para se recompor e decidir em que hotel dormiriam.

Estava com sono. Mas não quis desperdiçar a noite. Se logo o deixaria, precisava aproveitar os últimos momentos. Passeou os dedos dos pés nas pernas cabeludas e ronronou baixinho para chamar a atenção. Foi se aproximando devagar. Beijou-lhe os ombros e foi subindo pelo pescoço. Roçou os seios nas costas dele e, antes que fizesse um novo movimento, já estava dominada. De bruços. Ele a segurou pelos quadris e investiu, de uma vez só. O grito veio espontâneo, e abafado. Ele já a conhecia. Com uma mão tapou-lhe a boca e com a outra apertou o pescoço. As pernas se contraíram em desespero, deu a impressão que tentava escapar. Agarrou o lençol com força - com a falta de ar, ela sentia o coração pulsando sangue pra o corpo todo. A cada bombeada, perdia as forças. Quando desistiu de lutar ele a libertou da asfixia. Ela abandonou o próprio corpo, e deixou ser golpeada. Às vezes, escapavam-lhe gemidos - sem que ela sequer pudesse senti-los. Ele ainda a observou completamente entregue. Teve certeza de ser amado. Ela tomou o último fôlego e aninhou-se ao travesseiro. Dormiu sob o cafuné e os pequenos beijos do marido.

Na manhã seguinte, acordou sozinha na cama. Perdeu a hora. Já passava das nove e teria dormido o dia todo se não fosse o choro do bebê. Tinha obrigações diárias que precisava cumprir. Com a cabeça ainda grogue e as pernas bambas, foi ao encontro do filho. Mal teve forças para pegá-lo no colo. Pediu que a deixasse descansar um pouco mais e não foi atendida. Ele respondeu aos doces apelos da mãe com berros estridentes.

Sentiu-se tola por argumentar. Preparou a mamadeira. Certificou-se de que estava em boa temperatura e alimentou o pequeno. Ele sugou tudo quase que de uma vez só. Filhote mais guloso que esse não existia. As pernas tinham dobras de tão gordas.

Ajeitou-o para arrotar e deixou que pegasse no sono. É bonito ver uma criança dormindo. Passou um tempo admirando as feições, a pele lisinha e o cabelo ralo. Aproveitou que dormia e entrou no banho. Vestiu-se com uma roupa nova e bem passada. Prendeu os cabelos numa trança e olhou-se no espelho. Teve medo ao pensar que logo perderia o viço. Borrifou-se um perfume doce e caro – ia devolvê-lo para a penteadeira, mas decidiu colocá-lo na bolsa.

Abriu o armário.
Pegou a mala.
Foi até o berço. E despediu-se do filho.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Exercício 6

Sentia os pés gordos. E parecia que estavam colados no chão. Faltavam apenas duas quadras para chegar à clinica, mas precisou recuperar o fôlego. Antes que o corpo todo desabasse, sustentou o peso nos braços e flexionou os joelhos para sentar-se na mureta de uma casa. Não quis ficar olhando para o asfalto, então tomou ar e girou o corpo para o lado de dentro do jardim.

O calor era tanto que teve náuseas. Pensou que botaria o almoço pra fora ali mesmo. Estava de frente para uns botões de rosas tão lindos que se acertasse vômito neles acharia graça. Pensou que a acidez do suco gástrico queimaria as pétalas e deu risada ao concluir que os pequeninos, de futuro tão promissor, jamais cresceriam.

Reparou que a grama estava cortada, que os duendes de cerâmica descascavam uma tinta velha e desbotada, e que uma pequena trilha de pedras brancas levava a um chafariz. Estava desativado, mas os passarinhos ainda passeavam por ali. E pareciam felizes. Cantavam, pelo menos. Simpatizou com o cenário modesto, e mais ainda com o babado amarelado das cortinas que pendiam para fora da janela.

Escutou conversas lá dentro.

Riam. Alto.

O rádio devia estar ligado. E também uma batedeira. Deduziu que assariam bolo de cenoura e teve outra reviravolta no estômago. Afastou as pernas, inclinou a cabeça para frente e colocou a mão no ventre, com firmeza. Estava preparada. Deixaria vir tudo de uma vez. Tomaria cuidado apenas para não sujar o vestido. Só tinha outros dois que ainda lhe cabiam, mas eram mais fechados, de mangas longas. Esse era o único adequado para o verão.

Soluçou fundo, mas a garganta fechou involuntariamente. Em vez de vomitar, sentiu um líquido quente escorrer pelas pernas. Encharcou a roupa. Antes que conseguisse entender o que acontecia, começou a gritar por ajuda. Uma dor intensa invadiu-lhe as ancas e ela pensou em desmaiar.

Um senhor grisalho, acompanhado por uma dona rechonchuda e um menino de 10 anos saíram da casa para saber o que acontecia. Viram a moça grávida na mureta e correram para acudir. Quiseram saber como se chamava, mas ela só sabia chorar. O menino correu para clínica e pediu ajuda aos médicos, que foram muito rápidos no atendimento.

Logo chegaram de ambulância. Deram os primeiros socorros e a colocaram numa maca. Ela gritava. Arfava. O menino estava de olhos arregalados. Os avós mandaram-no para dentro de casa. Disseram que não havia com o que se preocupar. Tudo corria como tinha que ser.